Na Hora da dor mais profunda
A Bíblia é mesmo um livro surpreendente. Quer uma prova? Pegue-a e faça uma leitura do Salmo 88. Provavelmente você fique intrigado com seus termos. O conteúdo é pesado. Fica evidente diante de nossos olhos que quem o escreveu estava deprimido, sobrecarregado, desanimado. Suas palavras foram direcionadas a Deus em forma de oração, provavelmente numa noite de insônia e são marcadas pela dor, pela angústia e pelo desespero.
Você já esteve assim? Com uma dor tão profunda a ponto de se sentir como se estivesse dentro de uma cova, em lugares tenebrosos ou dentro um abismo, encurralado pelas circunstancias?
Os termos usados pelo salmista no versículo 6 sugerem esse estado emocional. Fazem qualquer cristão lembrar de José, que foi posto, literalmente, numa cova; Abraão, cercado por Deus em cerradas trevas e Jonas, que foi lançado no abismo.
Por ser um texto messiânico, aponta, também, para um personagem que viria tempos depois, Jesus Cristo, e sofreria com essa intensidade para resgatar o homem alienado de Deus, brindando-lhe com a boa nova da salvação.
Mas, se os parâmetros acima podem ser invocados nas entrelinhas do lamento poético – o texto, embora depressivo, tem a forma de uma poesia – é possível concluir desta leitura obrigatória nesses tempos em que a depressão se apresenta como a doença do século, que até nas situações de dor mais profunda, Deus pode estar trabalhando algo mais grandioso no seu projeto de Reino.
Assim, no mínimo ficam três lições: o sofrimento é uma possibilidade real mesmo na experiência de um homem justo; não podemos, contudo, aceitar a ordem presente como definitiva – este homem, por exemplo, mesmo contrariando a lógica, apresenta sua queixa a Deus, pede por socorro – e precisamos lembrar que a aparente rejeição de Deus, em muitas situações, é apenas “aparência”.
Lembram-se das experiências traumáticas de José, Abraão e Jonas, percebidas nas entrelinhas do texto? Pois bem, o primeiro acabou se transformando no salvador de seu povo, num momento crucial da história. Abraão, recebeu a Aliança e Jonas, aprendeu, depois de ser lançado no abismo, a ser um profeta fiel.
Como lembra-nos o apóstolo Paulo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus”. Até uma dor mais profunda!
Vivaldo S. Melo
